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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Visões no Capanema, nos Jardins de Burle Marx
ELEGIA 1938
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro,
fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guardas chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas por entre os mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho,
dinamitar a ilha de Manhattan
Carlos Drummond de Andrade


sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sala Portinari no Capanema






1937
Portinari decide executar os murais do Ministério da Educação em afresco, técnica ainda pioneira no Brasil.

Muitos anos mais tarde, em 1981, Mario Pedrosa escreverá: “Ele não chegou ao afresco por um simples incidente exterior, como se poderia pensar. Não foi o conhecimento dos murais de Rivera ou de seus êmulos no México que provocou no pintor brasileiro a idéia ou a vontade de fazer também pintura mural. Muita gente estranha à sua obra poderá pensar que o muralismo foi apenas um eco retardado do formidável movimento mexicano. Não o foi. Pela própria evolução interior de sua arte pode-se ver que foi por assim dizer organicamente, à medida que os problemas de técnica e de estética nele iam amadurecendo, que Portinari chegou diante do problema do mural. Foi como problema estético interior que pela primeira vez o abordou. Depois das figuras monumentais isoladas e do segundo Café, a experiência com o afresco se impunha naturalmente, como próximo passo. A possante figura em têmpera — a Colona —, feita em 1935 com o Café, do qual é um detalhe, mostra que Portinari queria o plástico monumental”. (28).

Tendo como colaboradores alguns de seus alunos da UDF, Portinari dedica-se aos estudos para os afrescos do Ministério. Recém-chegado ao Brasil, Enrico Bianco, jovem pintor italiano de 18 anos, lhe é apresentado. Apesar de muito jovem, Bianco tivera sólida formação no ofício de desenhista e pintor. É logo notado por Portinari, que o convida para ajudá-lo, em regime de tempo integral.

Até morrer, Portinari terá em Bianco seu mais importante colaborador, que deu sobre o pintor este depoimento: “Conheci Portinari bastante bem, apesar de ele ser um homem bastante fechado. Devo-lhe a minha paixão pelo Brasil. Ele foi, por assim dizer, a ponte pela qual me foi possível atravessar da velha cultura européia para a jovem e tropical cultura brasileira. Portinari era exatamente a síntese das duas, era um nobre florentino nascido no mato, um homem da esquerda que pintava operários vestido com colete de brocado, e ainda assim era profundamente honesto”. (29).

Último acesso:http://www.portinari.org.br/ppsite/ppacervo/cronobio.pdf">http://www.portinari.org.br/ppsite/ppacervo/cronobio.pdf